quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Uma longa jornada



A ideia surgiu de repente. A peregrinação à Aparecida nunca foi um desejo profundo, talvez fosse mais uma curiosidade. Mas no decorrer deste ano fui vendo algumas situações, estando com pessoas que necessitavam de oração, de uma intercessão.
A partir daí surgiu não só o desejo, mas a determinação de ir ao Santuário de Aparecida a pé.
Então ..."A 11 de agosto, lá de São José, partiram três doidas, mas com muita fé! Ave, Ave, Ave Maria!":)

 
O padre Paulo Ricardo diz que nós não sabemos qual o valor que oração tem, mas que o demônio sabe e que faz de tudo para nos impedir de rezar. Acrescente ao valor da oração, um grande sacrifício...Acho que o demônio ficou furioso.
Lancei a ideia e a adesão não foi grande, nada grande. Aquele questionamento sempre existiu: será que vou dar conta? Será que consigo? Mas seu eu fosse ficar parada na dúvida, ficaria apenas na vontade de fazer. Então resolvi não pensar muito, mas rezar muito nesta intenção.
Comecei a oferecer a Missa, o terço e fui colocando tudo nas mãos de Deus e Nossa Senhora. Tínhamos um mês para nos preparar, e quanto mais se aproximava o dia, mais problemas iam surgindo.
Da adesão pequena, ainda tivemos três baixas. Erámos seis e ficamos apenas em três. Comecei a ficar preocupada e mandei uma mensagem a Monique dizendo: se sobrar só nós duas, você vai? Ela respondeu que sim. Então liguei para o meu marido e perguntei: se todas desistirem, você vai comigo? rsrsrsrs
Fiquei também preocupada com Sarah que havia começado a ter problemas no joelho nos treinamentos. E qual não foi a minha alegria ao ouvir dela durante a caminhada, que mesmo com o joelho inchado, decidiu participar mesmo assim. E quando tomou esta decisão o joelho melhorou.  Lição: quando você se decide por Deus, Ele também se decide por você e dá as graças necessárias.
O grande dia chegou e eu não dormi bem naquela noite, estava ansiosa demais pra isso. Acordei cedo e terminei de preparar as coisas e lá fui me encontrar com minhas companheiras de caminhada, Monique e Sarah. Combinamos de participar da Santa Missa no Alfa e de lá mesmo partiríamos. Padre Cesário celebrou a Missa e no final nos deu uma benção, que disse ser a benção dos pés. :)
Tomamos o nosso café muito animadas com algumas numerárias, nos preparamos e às 9 horas partimos.
Começamos a caminhar, continuamos a caminhar e nunca mais saíamos de São José. Daí eu pensei: se pra sair de São José tá demorando desse jeito, imagina pra chegar em Aparecida. rsrs
Hora rezávamos, hora conversávamos, hora caminhávamos em silêncio, mas em oração. Pouco antes do meio dia, o Herickson, esposo da Monique chegou para ser nosso apoio naquele dia. Almoçamos em Eugênio de Melo, descansamos um pouco, cuidamos dos pés, trocamos as meias e voltamos para a estrada. A parte da tarde sempre custa um pouco mais que a parte da manhã, mas o tempo estava bom e chegamos a paróquia Santo Antônio de Pádua pouco antes das 16 horas.
Lá nos receberam um casal muito simpático que eu conhecia apenas por telefone, seu Jacob e dona Neusa. Com quase 50 anos de casados, esse casal foi um grande exemplo pra nós. Foram sem dúvida duas pérolas que Deus colocou no nosso caminho. Quando chegamos tinham preparado um lanche e ela já tinha iniciado os preparativos para o jantar. O padre Décio veio lanchar e conversar um pouco conosco, enquanto a dona Neusa foi dar banho na mãe dele que sofre de Alzheimer e Parkinson. Foi, voltou e terminou de preparar o nosso jantar enquanto tomávamos banho e descansávamos um pouco.
Jantaram conosco, contaram um pouco da vida deles, dos netos (um deles apareceu durante o jantar, e dona Neusa só sossegou depois que o convenceu a comer rs). Ela também falou que não tinha dormido naquele noite porque ficou tomando conta da mãe do padre. Que tinha feito o almoço cedo, posto a mesa e avisou ao marido que iria dormir um pouco. Quando acordou, próximo das 14 horas,  ele não tinha almoçado e questionando sobre o motivo ele disse: você sabe que não como sem você. Olhei para as minhas companheiras e sorrimos uma para a outra. Era quase que palpável o amor, o carinho e o respeito que um tinha pelo outro, e através do cuidado deles pude sentir o cuidado de Deus e Nossa Senhora por nós.
Fomos dormir e para nossa alegria havia camas!! Uma de casal no andar inferior e uma de solteiro no andar superior. Mas naquele momento estávamos mais unidas que a Santíssima Trindade, então colocamos os colchões na sala e dormimos uma do lado da outra.
Dormi bem o primeiro sono, o resto foi muito picado. Ao acordar e conversar com minhas companheiras, logo vi que a única que tinha dormido bem era a Monique. Que inveja!
Às 6:30 horas lá estavam o seu Jacob e a dona Neusa preparando o nosso café. Tomamos juntos aquela refeição e como o caminho naquele dia era longo, logo tivemos que nos despedir. Comecei a chorar, a Sarah olhou para o lado pra segurar as lágrimas também. O tempo com aqueles dois foi curto, mas profundo. Deram nos uma lição de bondade e desprendimento.
Entramos na igreja que já estava aberta e fomos falar com Jesus antes de sairmos. Às 7:30 horas partimos.
Estava um ótimo dia para caminhar e caminhamos por duas horas até fazermos a primeira parada e no momento que paramos, chegou o Nuno, meu marido, para nos apoiar naquele dia, juntamente com meu filho Filipe. Veio primeiro ver se estávamos bem e depois retornou para pegar nossas coisas na paróquia. Quando voltou perguntou se éramos realmente só três, porque tinha muita coisa. :)
E assim de cajado na mão e terço na outra, seguimos em frente. Ver placas de limite município ou paradas de ônibus, pra nós era motivo de grande alegria. Combinamos de almoçar no Taubaté Shopping e quando já estávamos na cidade, o Nuno disse:  agora vocês estão perto, mais meia hora e chegam lá. Vou voltar a São José pra buscar o Mateus.
Hunf, só se for meia hora de carro. Vocês não tem noção de como demoramos pra chegar a esse shopping.
Finalmente depois de um longo tempo chegamos, almoçamos, descansamos e toca a cuidar dos pés, afinal, ainda precisaríamos muito deles.
Por volta das 14 horas voltamos a caminhar. Foi uma tarde longa e difícil e demoramos para atravessar a cidade. Ás vezes eu dizia: vamos lá meninas, vamos cantar aquela música pra animar: o povo de Deus no deserto andava... rsrsrs e seguíamos. A cada nova cidade que conseguíamos chegar era uma vitória. Passamos pelos presídios em Tremembé rezando o terço e nessa altura o cansaço já era muito grande. Pedi orações e rezei pedindo forças a Deus. Pensei em entrar no carro de apoio e terminar o trajeto, pensei que não aguentaria, que tudo aquilo era loucura... Daí me lembrei que o Nuno sempre disse que não é força física que te faz chegar, é a fé.
Realmente força física eu já não tinha, mas tinha fé e essa fé me fez dar um passo após o outro. Pensar no amor que Deus tem por mim me fez seguir adiante, pensar nas pessoas que me pediram oração e naquelas por quem eu tinha me proposto rezar me fez continuar. Cada buzinada de carro, cada aceno, cada "Deus te abençoe", "Deus te acompanhe", cada incentivo dos nossos maridos e daqueles que ainda nos receberiam, nos ajudava a manter o passo. E assim, pouco antes das 18horas, lá estávamos com a família do seu Zé Roberto e dona Vanda.
Fomos muito bem recepcionadas, eles tinham preparado um "pequeno" lanchinho. A mesa era farta. Era visível que haviam preparado tudo com muito carinho e zelo.
A seguir fomos tomar banho e depois toca a comer novamente. Uma lasanha maravilhosa e depois sobremesa. Enquanto conversávamos com a dona Vanda e sua filha, seu Zé Roberto lavava a louça. Dona Vanda nos mostrou suas peças de artesanato. Coisas lindas!! Por volta então das 22 horas fomos dormir. Eu literalmente apaguei.

Às 6 horas da manhã meu despertador tocou e eu não tinha vontade alguma de me levantar. Meu corpo clamava por mais algumas horas na cama. Nos vestimos e fomos tomar café. Quando seu Zé Roberto se juntou a nós, demos um grande abraço nele, era dia dos pais. E dirigindo-se a esposa, olhou pra nós e disse: só sou pai porque esta mulher aceitou ser mãe. E deu um beijo na esposa. Achei lindo e suspirei!
Depois fomos para a Missa e conhecemos o padre Joaquim. Ofereceram a Missa por nós e no final o padre chamou seu Zé Roberto que nos apresentou a comunidade. Voltamos, trocamos a roupa, arrumamos as coisas e às 10 horas partimos. Eu como sempre, debaixo de lágrimas. Haviam ainda 34km a serem percorridos. Nuno e o Snard, esposo da Sarah já haviam chegado para nos acompanhar.
Ao contrário dos outros dias, o sol estava forte. Próximo ao meio dia paramos para almoçar e às 13 horas já estávamos na estrada outra vez. Muito sol, pouca sombra, pernas dando sinais de exaustão. O Nuno e o Snard apareceram com picolés, o que nos alegrou bastante.
Houve um momento em que a Sarah começou a sentir-se mal, e meus pés começaram a fazer bolhas. O Nuno dizia: essa é a hora da provação. A Sarah precisou de remédios e eu não ousei tirar o tênis do pé, não valia a pena. Perguntei a Sarah se ela queria ir no carro de apoio até o remédio fazer efeito, mas a guerreira disse que não.
Passamos por Moreira Cesar e chegamos a Roseira. Já não pisava direito no chão. Caminhava em silêncio e pensava na Cruz de Cristo e repetia: assim como o Senhor por amor não desistiu da cruz, por amor eu também não desistirei. Caminhava não sei como e oferecia aquelas dores.

Houve uma hora, acho que pra poder puxar por nós, o Nuno disse que chegaríamos lá pelas 20 horas e que nem sabia se o Santuário estaria aberto. rsrsrsrs
Chegamos à Aparecida. Entramos na cidade, mas ainda era preciso chegar ao Santuário. Havia aquelas placas pra animar romeiro dizendo: você está a 3km, 2km...mas naquela altura já estávamos expert em distância e sabíamos que era mentira.
Os três maridos já estavam lá nos dando força, nos incentivando nos últimos passos. Entramos no estacionamento e caminhávamos tão rápido que o Snard disse: tá difícil de acompanhar vocês.
E finalmente, de braços dados, nós três entramos no Santuário. Difícil descrever a emoção, não foi como das outras vezes.

Fomos até o Santíssimo e em seguida até a imagem. Ali de joelhos, chorando muito, só conseguia dizer: Mãe cheguei, Mãe estou aqui. Permanecemos ali um certo tempo. Coloquei no colo da Mãe todas as intenções, clubes, colégio, pessoas, situações, vocações...Não ousei pedi nada por mim, porque olhando para aquela longa jornada, sabia que já tinha recebido muito mais do que aquilo que eu poderia desejar.
Por amor não desistimos desta santa loucura! Obrigada meu Deus, obrigada minha Nossa Senhora Aparecida por essa longa jornada.





segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Relatos de uma peregrinação à Aparecida

Tudo bom?
Eu estou aqui mais para lá do que para cá, onde encosto durmo!!!
Foram 2 dias muitooooooo intensos! Uma experiência única e só quem passou é que vai conseguir entender todas as emoções que eu senti durante esta peregrinação.
Pela primeira vez vi claramente a providência Divina totalmente em ação!
Vamos lá, começando pelo princípio:
Não fui eu quem decidiu ir a Aparecida! Não tenho nenhuma adoração especial por Aparecida e não gosto muito do Santuário!
Foi Deus quem quis que eu fosse a Aparecida e deixou essa sua vontade de forma bem clara de forma que eu tive mesmo de ir.
Nas minhas idas para São Paulo durante a semana eu via os peregrinos pela Dutra e aquilo foi criando uma vontade em mim. Coincidentemente a Joanina falou que um casal amigo dela (Helaine e o Leandro) iam num grupo de mais ou menos 100 pessoas.
Na sexta durante a tarde fui ao centro comprar um boné branco, as faixas refletoras (a compra das faixas foi uma aventura à parte), barras energéticas e de cereais e água. Passei no Padre Guilherme para lhe dar um abraço.
Entretanto a Joanina descobriu que era preciso inscrever-me para que pudesse fazer a caminhada com o grupo, liguei para um tal de Amarildo e a comunicação entre mim e ele foi má, ele não me entendia e eu não o entendia, só entendi que ele já tinha 300 pessoas inscritas e não tinha mais lugar no ônibus para vir embora de Aparecida. Pedi para a Jô lhe ligar e combinar direito e aí lá vimos que era isso mesmo, podia ir com eles mas não tinha lugar no ônibus da volta. Era para eu estar às 22:30 num determinado lugar.
Às 21:30 tomei um banho, fizemos uma oração em família e lá fui sozinho ter com o grupo.
22:30 lá estava eu no lugar combinado e a  primeira surpresa: tinha muitaaaaaaaaaaaa gente!!! Gente de todas as idades, homens e mulheres! Juntei-me ao grupo e 2ª surpresa, o marido da amiga da Joanina era um tipo que sempre que eu ia aos recolhimentos conversava com ele. 
Conheci o Amarildo e a mulher dele e o homem era uma figura! Muito divertido!!!
Chega um Padre, dá uma benção geral para o pessoal todo, a seguir o Amarildo passa as orientações todas e.... começa a peregrinação!
O Leandro falou para eu ficar para trás que como era a primeira vez era melhor eu ir junto com o Amarildo. Tinha lá 2 velhinhos que eu pensei: estes nunca que vão chegar lá! (mas chegaram)
Nós fomos os últimos a sair: eu, Leandro, Amarildo e mais 2 figuras que não me lembro do nome, tudo na palhaçada a contar histórias. Só que eu ando rápido (achava que ia conseguir fazer o trajeto em 16h). A primeira parada ía ser num posto de gasolina que ficava a 25km de SJC. Chegamos lá relativamente tranquilos e tive o primeiro choque de realidade: eu já sabia mas não lembrava que os postos de gasolina na Dutra são muito maus, antigos e sujos! -Oh Nuno se ajeita aí, tenta dormir um pouco e depois seguimos! Não consegui dormir nada, a adrenalina era muita! Fiquei a ver com mais atenção as pessoas que estavam comigo, tudo gente muitooooo simples e humilde, mas todos gente muito boa!
6:00 da manhã vem o grupo de apoio e serve o pequeno almoço. Comemos e aí o portuga tem o seu momento portuga na academia: Fui alongar os músculos em cima de um bidão de água, o meu pé ficou preso no bidão e pumba caí com estrondo! O pessoal todo a rir e eu com o meu joelho a sangrar! Lá vem o Amarildo a rir: -olha e depois vocês não querem que eu conte anedota do portuga! - abre a mochila dele (parecia a mochila do Sport Billy tinha tudo lá!) e faz-me um curativo. Lá fomos nós novamente!
Segundo trecho, 15 kms! Foi de boa, eu e o Leandro chegamos lá rapidinho, descansamos um pouco e às 10h o apoio serviu o almoço!!! Aí o Leandro fala: oh descansa bem que a seguir vem a fase do desespero! Agora que tu vai ver se aguenta ou não!!!
Às 11:30 começa a etapa do desespero! Estavam 36º!! No asfalto deviam estar mais de 40º e tínhamos de caminhar cerca de 30km numa parte que não tinha uma única sombra, um posto para parar, nada!!! Ao fim de mais ou menos 10Km eu e o Leandro já estávamos os 2 mortos! Tudo doía! Tudo!!!! Aí do nada aparece uma farmácia! O moço que estava na porta fala: -entra aí irmão, aqui você vai encontrar tudo o que precisa! Lá atrás tem água bem fresquinha para você tomar!
Compramos anti-inflamatório e aquele spray para desportistas! Enchemos as nossas garrafinhas de água e lá voltamos!
Quando encontrávamos alguém que parecia estar em dificuldade parávamos para ajudar. Houve uma altura em que eu estava a andar um pouco mais à frente e do nada aparecem 2 senhoras: -tá difícil meu filho? Vai na fé que você consegue!!! Reza por mim lá!
Foi assim o caminho todo, quando as forças ou a fé começava a faltar, aparecia alguém e conversava, oferecia uma banana, ou uma água gelada! A meio da tarde, numa altura em que eu estava seriamente a pensar em desistir, aparece uma família numa kombi com fruta e água bem gelada, eu parei para trocar de meias e estava a pensar na minha desgraça e passa uma velhinha com 76 anos!!!! e que também estava a fazer a peregrinação! Ela que me deu força, calcei os tênis e volta para a estrada! Passado mais alguns Kms, as forças já estavam a faltar novamente e aparece uma outra família, oferecem-me pão com queijo e sumo de maracujá, eu não gosto de maracujá mas aquele sumo soube-me como os melhores néctares que já provei!
Às 18h chegamos no posto que marcava o fim da 2ª etapa! Tinham-nos prometido que dava para tomar um chuveiro nesse posto! Quando pousei a mochila e fui no banheiro tive a visão do inferno!!!!! Conhecem o filme Trainspotting? Aquela parte em que o gajo vai ao banheiro mais sujo da Escócia? Aquele banheiro era pior!!! Mil vezes pior!!! Era um cheiro de desmaiar! Saí rapidinho e vim-me sentar debaixo de uma árvore cá fora. Passado um pouco vem o Leandro e chama-me: -achei um lugar legal para tomarmos banho! O chuveiro de serviço das empregadas da lanchonete do posto! Lá fomos para o banho e aquilo tava inundado!!! água pelo tornozelo!! Mas a necessidade de passar uma água no corpo era maior! Lá nos despimos e entramos debaixo do chuveiro (pormenor: não havia portas, havia uma parede que separava o chuveiro da lanchonete, mas quem entrasse e olhasse para a entrada ia ver um monte de homem pelado! Como falou o Leandro: - Foi o melhor pior banho da minha vida!
Banhei, jantei e sentei debaixo de uma árvore, o Leandro adormeceu e eu também peguei no sono.
Lá partimos para a próxima etapa, agora era de noite e tudo estava mais fresco! As coisas foram tranquilas, só que o corpo estava cada vez mais cansado, a energia ia acabando, de vez em quando encontrávamos pessoas pelo caminho que precisavam de ajuda, ou porque estavam com bolhas ou câimbras ou apenas uma palavra de incentivo, nós parávamos para ajudar ou ajudávamos em andamento porque se a pessoa parasse não ia conseguir recomeçar.
 A meio da noite eu estava parado num pedágio e tinha lá um homem a incentivar as pessoas: -Parabéns peregrinos!!!! Vocês são uns heróis!!! Estão quase chegando!! Faltam só 8km!!! E oferecia um lanche.

Eu cheguei perto dele e disse-lhe faltavam 20km e não 8, ele olhou para mim riu e disse: -cara se eu falar pra eles que ainda faltam 20 esse povo desiste e volta pra trás!
Às 5h da manhã chegamos a Aparecida, quando vi a primeira placa meu coração encheu de alegria, tava a chegar!!!! Mas ainda não tínhamos chegado!!! Antes ainda tinha uma subidona!!! Daquelas que testa a nossa fé e determinação! Mil pensamentos passam pela cabeça: -já cheguei a aparecida, vou pedir boleia até ao santuário! Não, não posso, é só mais um último esforço!
Entrei no Santuário de Aparecida às 6:20 e o primeiro sentimento que tive foi de desilusão!!!!! Construíram um shopping popular dentro do shopping, entre outras coisas vendiam TAESERS!!! Vendiam cerveja!! Vi um tipo sentado dentro do santuário com 10 latas de cerveja!!! Mulherada sem noção vestida de mini saia e com altos decotes, não tinham a minima noção do lugar onde estavam!!! Aquilo não era um santuário, era um circo dos horrores! Comecei a assistir a missa das crianças mas o cansaço venceu e adormeci. A seguir eu e o Leandro fomos participar numa homenagem bonita a Nossa Senhora e depois foi a missa solene. Houve uma altura em que as minhas forças faltaram e eu senti que ía cair, uma velhinha que estava sentada perto de mim chamou-me e perguntou se eu queria sentar no lugar dela, agradeci mas continuei de pé.
No final era altura de vir para casa, tivemos uma última mortificação: ir para o ônibus!! Meus pés estavam cheios de bolhas, minha perna esquerda estava totalmente inchada, estavam 42º e nada de chegar no ônibus!! Foi difícil!!!
Na chegada a São José tivemos uma surpresa muito simpática, numa pracinha do centro da cidade o povo tinha preparado um almoço, soltaram fogos e quando saíamos do ônibus batiam palmas! Foi uma emoção muito grande!!!
Durante a caminhada tinha gente boa e tinha gente muito má!! Apareciam evangélicos e diziam: -Meu Jesus morreu para que eu não tivesse de fazer isso!!!
Na altura do desespero apareceu uma mulher com uma Bíblia e falou: -filho conheça a verdadeira Bíblia, você não precisa de fazer isso!!!
Teve pessoas que nos tentavam atropelar! Mas nada disso abalou minimamente a caminhada!
Para fazer a peregrinação abandonei-me de tudo, todos os luxos e comidades, dormi debaixo de arvores, no asfalto e na terra! Mas em momento algum senti desconforto, nunca me faltou água e não passei fome em momento algum, o único dinheiro que gastei foram R$4 num gatorade. Tudo Deus e Nossa Senhora providenciaram para mim!
Foi dos momentos mais intensos e emocionantes da minha vida!
Grande abraço!


Amarildo, responsável pela caminhada

Mais fotos em: https://www.facebook.com/caminhada.doamarildo


Nuno Aguiar


quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Buscar e ouvir a Cristo


Hoje tenho uma pergunta para você: o que te leva a buscar a Cristo?
Sei que muitos o procuram para obter graças, outros ainda porque foram acostumados assim... ir a Missa ao domingo.. se não for a semana corre mal, e acabam participando muito mais por uma espécie de superstição. 
A grande verdade é que poucos vão a Jesus por Jesus. Ir a Jesus por amor, com o coração desprendido e independente de qualquer coisa, por quem Ele é, assim deveria ser a nossa busca. 
Mas só poderemos de fato fazer isto, se O conhecer-mo. Não se ama e tampouco se deseja o que não se conhece. 
Por Cristo sempre podemos fazer um pouco mais. Ele tem passado na minha vida e na sua também. Por vezes, queremos ver o extraordinário acontecer para se ter um pouco mais de fé, uma entrega maior.. Mas é no ordinário da nossa vida, que O devemos buscar com mais insistência. 
"Deus quer falar comigo, em coisas tão pequenas, nas coisas simples..."
Hoje muitos falam de Deus, poucos falam com Deus e muito menos ainda, são aqueles que aprendem a ouvir a voz de Deus.
Busquemos a Cristo, mesmo quando tudo parecer contrário, mesmo quando nosso coração parecer frio e distante.


“Eu te amo, Senhor Jesus, minha alegria e descanso, com todo o meu coração, com toda a minha mente, com toda a minha alma e com todas as minhas forças; e se vês que não te amo como deveria, ao menos desejo amar‑te, e, se não o desejo suficientemente, pelo c menos quero desejá‑lo desse modo [...]. Ó Corpo sacratíssimo aberto pelas cinco chagas, coloca‑te como selo sobre o meu coração e imprime nele a tua caridade! Sela os meus pés, para que saiba seguir os teus passos; sela as minhas mãos, para que realizem sempre boas obras; sela o meu peito, para que arda para sempre em vibrantes atos de amor por Ti. Ó Sangue preciosíssimo, que lavas e purificas todos os homens! Lava a minha alma e põe um sinal no meu rosto, para que não ame a ninguém senão a Ti”.


Deus o abençoe sempre!

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Recolhimento para mulheres

TEMA: O SANTO DO COTIDIANO

DIAS E HORÁRIOS: 10 de outubro - 6ª feira, das 14:30h às 16:00h
                                   11 de outubro - sábado, das 09:30h às 11:00h


1ª MEDITAÇÃO: Santidade no mundo. Chamada universal.

2ª MEDITAÇÃO: São Josemaria, exemplo de esperança nas adversidades. Espírito filial e otimista no sofrimento, nas incompreensões, nas dificuldades, em todas as circunstâncias.

Após as meditações, haverá atendimento por parte do sacerdote.

LOCAL: Centro Cultural Alfa
              Rua Justino Cobra, 70 - Vila Ema
              Fone: 3941-8242

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Ora e labora

Que toda criatura se torne reflexo de vossa bondade, Senhor!

Li hoje este texto, de um informativo que recebo do Mosteiro da Ressurreição. Achei interessante e partilho com vocês!

Numa tarde de primavera, estava eu trabalhando feliz no jardim do nosso Mosteiro da Ressurreição, quando fui saudado por um visitante muito animado e interessado em saber como vivíamos nesse ambiente de paz quase palpável, envoltos em Deus, ou melhor, Deus tão envolto em nós como uma belíssima e misteriosa névoa matutina, tão presente e ao mesmo tempo intocável.
Naquele mesmo instante soou o sino das dezessete horas, e o visitante, mais que depressa, perguntou-me: Este sino está convidando os monges a orar ou trabalhar? É para o “Ora” ou para o “Labora”? Respondi-lhe docemente que segundo a Tradição monástica, o monge deve estar sempre em oração, de acordo com a primeira Epístola aos Tessalonicenses, 5,17 que nos pede “orai sem cessar”.
Então o visitante ficou confuso e meio que sem jeito perguntou-me: “Mas vocês só rezam”? Respondi-lhe dizendo que rezamos e trabalhamos; e não só isso, pois também temos momentos de convivência fraterna e momentos de recolhimento, fazemos as refeições, lavamos a louça, as roupas, limpamos o mosteiro, trabalhamos na terra, cuidamos dos animais, atendemos e orientamos as pessoas que nos procuram, pintamos ícones, fabricamos velas, cozinhamos e realizamos tantos outros trabalhos, muitos deles tão discretos e eficazes, visto somente por Deus.
Muito mais alegre fiquei quando percebi o rosto admirado e alegre daquele visitante, não podendo esconder sua emoção ao dizer: “Então vocês são pessoas normais”? Num sorriso descontraído, perguntei-lhe o que ele entendia por “normal”. A resposta veio de maneira espontânea:”Homens, e não anjos”. Ao ouvir sua resposta, veio-me muito forte a passagem do Livro do Gênesis 1,26 “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança”, do Evangelho segundo João 1, 14 “E o verbo se fez carne e habitou entre nós”, e da primeira Epístola de João 4,8 “Deus é amor”.
Deus pensou com carinho no ser humano, criou-o à sua imagem, ou seja, colocou no homem a sua essência: Amor. E soprou em suas narinas o hálito vital, o acompanhou e o sustentou durante a História da Salvação e, por fim, enviou seu único Filho para dar sua vida em resgate do homem. Deus se fez homem para divinizar o homem, pois quanto mais humano, mais divino.
O visitante ficou impressionado! Tantos véus se lha caíam da face, tantas histórias de mosteiros e conventos inventadas e transmitidas por seus antepassados eram-lhe desfeitas num pequeno momento de conversa com um monge. Cheio de coragem, ele perguntou:”Mas como vocês vivem aqui? Como é o dia a dia de vocês?
Respondi-lhe dizendo que o nosso dia é bastante longo; normalmente nos levantamos às 4 horas da madrugada e às 4h20 min iniciamos o nosso primeiro momento de oração, chamado de Vigílias, por ser celebrado de madrugada, nas vigílias da noite, onde, segundo a Tradição monástica, o Senhor Jesus voltará de madrugada; e assim encontrará os monges, orando na Igreja do Mosteiro. Durante todo o dia, temos mais seis momentos de oração na capela e assim passamos o dia entre trabalho e oração, recolhimento, leitura e convívio com os irmãos de hábito.
“Vocês levantam-se às 4 horas da manhã?”! “Sim”, respondi-lhe prontamente. E ele continuou: “É fácil para você se levantarão cedo”? Sorrindo, respondi-lhe com sinceridade: “Não”! Ele riu, compreendendo que tudo na vida exige um querer, um esforço pessoal. Então ele perguntou-me: “O que mais lhe toca ao celebrar as Vigílias”? “Fico sempre tocado pelas orações lidas pelo hebdomadário logo após o hino, onde muitas delas fazem menção de toda a humanidade, com suas lutas, seus esforços, seus medos, suas conquistas. Mas uma delas me chama muito a atenção, que é a oração da quinta-feira da primeira semana, que reza assim: “Pai de bondade, vigiai sobre vossos filhos ainda mergulhados na noite; que ninguém se esquive do vosso olhar de misericórdia, mas que toda criatura torne-se reflexo de vossa bondade, em Jesus, o Cristo, vosso Filho e nosso irmão, na unidade do Espírito Santo”.
Então o visitante confidenciou-me que estava sedento de Deus, que não sentia o chamado à vida monástica, mas que gostaria de aprender a orar sem cessar e assim transformar e santificar seus momentos de trabalho e dar mais qualidade aos momentos de lazer com a família. Foi então que lhe recomendei a leitura de um pequeno livro, mas muito profundo sobre a oração e o trabalho, com o título “Orar e trabalhar”, escrito por Anselmo Grun e Fidelis Ruppert. O visitante despediu-se com um abraço afetuoso e seguiu seu caminho com uma esperança viva e alegre de poder beber um pouco da espiritualidade beneditina, tirada da Sagrada Escritura, e assim dar mais sabor a sua vida, sendo sempre mais aquilo que Deus é: Amor e bondade.

Dom Adalberto Savicki, OSB



domingo, 15 de setembro de 2013

Nossa Senhora das Dores

I. FAZEI, Ó MÃE, fonte de amor, / que eu sinta a tua dor / para contigo chorar. / Fazei arder o meu coração / por Cristo Deus na sua Paixão, / a fim de que mais viva nEle que comigo1.
O Senhor quis associar a sua Mãe à obra da Redenção, fazendo-a participar da sua dor suprema. Ao celebrar hoje esse sofrimento corredentor de Maria, a Igreja convida-nos a oferecer pela nossa salvação e pela de todos os homens as mil dores da vida, quase sempre pequenas, bem como as mortificações voluntárias.
Maria, associada à obra de salvação de Jesus, não sofreu apenas como uma boa mãe que contempla o seu filho nos maiores sofrimentos, até que morre. A sua dor tem o mesmo caráter que a de Jesus: é uma dor redentora. O sofrimento da Escrava do Senhor, dAquela que é puríssima e cheia de graça, eleva os seus atos a tal ponto que todos eles, em união profundíssima com o seu Filho, adquirem um valor quase infinito.
Nunca compreenderemos totalmente a grandeza do amor de Maria por Jesus, causa das suas dores. Por isso, a Liturgia aplica à Virgem dolorosa, como ao próprio Jesus, as palavras do profeta Jeremias: Ó vós todos que passais por aqui, olhai e vede se há dor como a minha dor2.
A dor de Nossa Senhora foi imensa devido à sua eminente santidade. O seu amor por Jesus permitiu-lhe sofrer os padecimentos do seu Filho como próprios: “Se rasgam com açoites o corpo de Jesus, Maria sente todas essas feridas; se lhe atravessam com espinhos a cabeça, Maria sente-se dilacerada pela ponta desses espinhos; se lhe apresentam fel e vinagre, Maria experimenta todo esse amargor; se lhe estendem o corpo sobre a cruz, Maria sofre toda essa violência”3. Quanto mais se ama uma pessoa, mais se sente a sua perda. “Mais aflige a morte de um irmão que a de um irracional, mais a de um filho que a de um amigo. Pois bem [...], para compreendermos quão grande foi a dor de Maria na morte do seu Filho, teríamos que conhecer a grandeza do seu amor por Ele. Mas quem poderá alguma vez medir esse amor?”4
A maior dor de Cristo – a que o sumiu numa profunda agonia no horto de Getsêmani, a que o fez sofrer como nenhuma outra – foi o conhecimento profundo do pecado como ofensa a Deus e da sua maldade diante da santidade de Deus. E a Virgem penetrou e participou mais que nenhuma criatura desse conhecimento da maldade e da fealdade do pecado. O seu coração sofreu uma angústia mortal causada pelo horror ao pecado, aos nossos pecados. Maria viu-se submersa num mar de dor. “E já que cada um de nós contribuiu para acrescentá-la, não devemos compadecer-nos e procurar reparar as feridas infligidas ao Coração de Maria e ao Coração de Jesus?”5
II. ATRAVÉS DE MARIA e de José, as criaturas que mais amou nesta terra, o Senhor parece ter querido ensinar-nos que a felicidade e a eficácia não estão nunca longe da Cruz. E se bem que toda a vida de Nossa Senhora esteve, junto com a do seu Filho, orientada para o Calvário, há contudo um momento especial em que lhe é revelada com particular clareza a sua participação nos sofrimentos do Messias, seu Filho. Maria, acompanhada de José, foi ao Templo para se purificar de uma mancha legal que não tinha contraído e para oferecer o seu Filho ao Altíssimo. Nessa imolação que fazia de Jesus, vislumbrou a imensidade do sacrifício redentor, conforme tinha sido profetizado. Mas Deus quis também revelar-lhe por meio de um homem justo, Simeão, a profundidade desse sacrifício e a sua participação nele. Movido pelo Espírito Santo, Simeão disse-lhe: Eis que este menino está posto para ruína e para ressurreição de muitos em Israel, e para ser sinal de contradição. E uma espada trespassará a tua alma, a fim de se descobrirem os pensamentos escondidos nos corações de muitos6.
As palavras dirigidas a Maria anunciam claramente que a sua vida estaria intimamente unida à obra do seu Filho. “O anúncio de Simeão – comenta João Paulo II – apresenta-se como um segundo anúncio a Maria, pois indica-lhe a dimensão histórica concreta em que o Filho cumpriria a sua missão, ou seja, na incompreensão e na dor [...]. Revela-lhe também que Ela teria de viver a sua obediência de fé no sofrimento, ao lado do Salvador que sofre, e que a sua maternidade seria obscura e marcada pela dor”7.
O Senhor não quis evitar à sua Mãe a aflição de uma fuga precipitada para o Egito, quando talvez já estivesse instalada numa modesta casa de Belém e começasse a gozar, com José, de uma vida familiar em torno de Jesus. Não a dispensou do exílio numa terra estranha, nem de ter que recomeçar a vida com as poucas coisas que tinha podido reunir naquela viagem apressada... E depois de terem regressado a Nazaré, não a poupou da angústia daqueles dias em que teve de procurar Jesus que se deixara ficar em Jerusalém, à idade de doze anos! E, mais tarde, os anos do ministério público do Senhor foram para Ela uma sucessão contínua de preocupações, à medida que tinha notícia da má vontade e dos ataques dos judeus, numa oposição cada vez mais cerrada... Por último, sobrevieram os acontecimentos da Paixão, em ritmo alucinante, que a Virgem acompanhou ou presenciou de coração despedaçado: as humilhações ao longo do processo, a flagelação, os gritos que pediam a condenação do seu Filho à morte, a solidão e o abandono em que o vê, o encontro no caminho do Calvário... Quem poderá jamais compreender a imensidão da dor que invadiu o coração da Santíssima Virgem?... Ali está Nossa Senhora... Vê como pregam o seu Filho na Cruz... E depois os insultos, a longa agonia de um crucificado... Oh! Quão triste e aflita / entre todas a Mãe bendita, / que só tinha aquele Filho! / Que angústia não sentia / a Mãe piedosa ao ver / as penas do seu Filho! / Quem poderia não chorar, / contemplando a Mãe de Cristo / em tão cruel suplício? / Quem não se entristeceria / vendo a Mãe assim / sofrer com o seu Filho?8
Ao considerarmos que os nossos pecados não são alheios a essa dor da nossa Mãe, mas parte ativa, pedimos-lhe hoje que nos ajude a unir-nos aos seus sofrimentos, a sentir um profundo horror pela menor ofensa a Deus, a ser mais generosos na reparação das nossas faltas e das que se cometem todos os dias no mundo.
III. A FESTA DE HOJE convida-nos a aceitar os sofrimentos e contrariedades da vida para purificarmos o coração e corredimirmos com Cristo. A Virgem ensina-nos a não nos queixarmos dos nossos males, pois Ela nunca o fez; anima-nos a uni-los à Cruz redentora do seu Filho e a convertê-los num bem para a nossa família, para a Igreja, para toda a humanidade.
A dor que teremos de santificar consistirá freqüentemente numa soma de pequenas contrariedades diárias: esperas que se prolongam, mudanças de planos, projetos que não se realizam... Noutras ocasiões, apresentar-se-á sob a forma de pobreza, de perda progressiva do nível de vida a que se estava acostumado, e quantas vezes até de falta do necessário. E essa pobreza será um grande meio para nos unirmos mais a Cristo, para imitá-lo no seu desprendimento absoluto das coisas, mesmo das mais imprescindíveis. Olharemos então para a Virgem no Calvário, no momento em que despojam o seu Filho daquela túnica que Ela tecera com as suas mãos, e acharemos consolo e forças para prosseguirmos a nossa caminhada com paz e serenidade.Pode sobrevir-nos também a doença, e pediremos a graça de aceitá-la como um tesouro, como uma carícia de Deus, e de mostrar-nos agradecidos pelo tempo em que talvez não tenhamos sabido apreciar plenamente o dom da saúde. A doença, em qualquer das suas formas – mesmo psíquica –, pode ser a “pedra de toque” que comprove a solidez do nosso amor ao Senhor e da nossa confiança nEle. Enquanto estamos doentes, podemos crescer mais rapidamente nas virtudes, principalmente nas teologais: na , pois aprendemos a ver nesse estado a mão providente do nosso Pai-Deus; na esperança, pois sempre estamos nas mãos do Senhor, especialmente quando nos sentimos mais fracos e necessitados; na caridade, oferecendo a dor, sendo exemplares na alegria com que amamos essa situação que Deus quer ou permite para nosso bem.Freqüentemente, o lado mais difícil da doença é a forma em que se apresenta: “a sua inusitada duração, a impotência a que nos reduz, a dependência a que nos obriga, o mal-estar que provém da solidão, a impossibilidade de cumprirmos os deveres de estado... Todas essas situações são duras e angustiantes para a nossa natureza. Apesar de tudo, e depois de termos empregado todos os meios que a prudência aconselha para recuperarmos a saúde, temos de repetir com os santos: «Ó meu Deus! Aceito todas essas modalidades: o que quiseres, quando quiseres e como quiseres»”9. Pediremos a Deus mais amor e dir-lhe-emos devagar, com um completo abandono: “Tu o queres, Senhor?... Eu também o quero!”10
Sempre que o fardo nos pareça excessivamente pesado para as nossas poucas forças, recorreremos a Santa Maria pedindo-lhe auxílio e consolo, “pois Ela continua a ser a amorosa consoladora de tantas dores físicas ou morais que afligem e atormentam a humanidade. Ela conhece bem as nossas dores e as nossas penas, pois também sofreu desde Belém até o Calvário: uma espada trespassará o teu coração. Maria é a nossa Mãe espiritual, e uma mãe sempre compreende os seus filhos e os consola nas suas necessidades.“Por outro lado, Ela recebeu de Jesus na Cruz a missão específica de amar-nos, de só e sempre amar-nos para nos salvar. Maria consola-nos sobretudo mostrando-nos o crucifixo e o paraíso [...].“Ó Mãe Consoladora, consolai-nos, fazei que todos compreendamos que a chave da felicidade está na bondade e no seguimento fiel do vosso Filho Jesus”11.

Falar com Deus
Francisco Fernadez Carvajal

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Novena a Santa Terezinha

Oração

Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, eu Vos agradeço todos os favores e todas as graças com que enriquecestes a alma de vossa serva Santa Teresinha do Menino Jesus, durante os 24 anos que passou na terra.
E pelos méritos de tão querida Santinha, concedei-me a graça que ardentemente Vos peço (faça aqui o pedido) se for conforme a vossa santíssima vontade e para a salvação de minha alma.

Reza-se em seguida 24 vezes: "Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo, assim como era no princípio, agora e sempre, por todos os séculos e séculos, amém." Santa Terezinha do Menino Jesus, rogai por nós.


Rezar 1 Pai-Nosso, 1 Ave Maria


segunda-feira, 27 de maio de 2013

Que eu veja

Todos os milagres que Cristo fez, nos corpos ou nos elementos materiais, simbolizam os que Ele faz nas almas mediante a graça do Espírito Santo. Por isso, São João chama sinais os milagres de Jesus.
Dentre eles, as curas dos cegos simbolizam a luz da fé que Cristo traz aos olhos da alma. Assim o lembrava Bento XVI na homilia de encerramento do Sínodo dos Bispos, em 28 de outubro de 2012: "Sabemos que a condição de cegueira tem um significado denso nos Evangelhos. Representa o homem que tem necessidade da luz de Deus – a luz da fé – para conhecer verdadeiramente a realidade e caminhar pela estrada da vida".
Vejamos brevemente o sinal da cura do cego de Jericó, a que o Papa se refere nessa homilia. Estava Jesus de passagem pela cidade de Jericó. À porta da cidade, achava-se um mendigo cego chamado Bartimeu, pedindo esmola. Ouvindo a multidão que passava – acompanhando Jesus –, perguntou o que havia. Responderam-lhe: “É Jesus de Nazaré que passa”. Ele, então, exclamou: “Jesus, filho de Davi, tem piedade de mim” (Lc 18,36-38).
Quando os olhos da alma estão cegos e não vemos a luz de Deus, somos semelhantes a Bartimeu. Só temos noções imperfeitas das coisas da vida e do mundo: somos cegos, ainda que pensemos que enxergamos tudo bem; ficamos parados, ainda que creiamos que avançamos rumo à realização; não conseguimos usufruir os verdadeiros bens e belezas da vida, por mais que procuremos espremer os prazeres até a última gota; e não percebemos que tudo o que apanhamos não passa de migalhas de «mendigo do sentido da vida»…
Podemos dizer que estamos satisfeitos? Não é verdade que, muitas vezes, na solidão e no silêncio, temos vontade de chorar sem saber o porquê, pois sentimos um estranho vazio, uma pobreza interior, uma escuridão inexplicável? Talvez Santo Agostinho possa projetar luz sobre a nossa amarga cegueira. Lembremo-nos só das palavras que citávamos na meditação anterior: «Fizeste-nos, Senhor, para ti, e o nosso coração estará inquieto enquanto não descansar em ti».
O Catecismo da Igreja Católica, que Bento XVI aconselha como chave-de-luz para este Ano da Fé, diz uma grande verdade: «O desejo de Deus está inscrito no coração do homem, já que o homem é criado por Deus e para Deus; e Ele não cessa de atrair o homem a si e somente no Senhor o homem há de encontrar a verdade e a felicidade que não cessa de procurar» (n. 27).

O primeiro passo para sairmos da cegueira que frustra o coração consiste em não sufocar o desejo de Deus que todos nós temos, desperto ou abafado, no fundo da alma; isso seria arrancar as nossas próprias raízes. Para tanto, precisamos a humildade de reconhecer a nossa indigência: «Condição essencial – dizia o Papa na homilia citada – é reconhecer-se cego, necessitado dessa luz; caso contrário, permanece-se cego para sempre (cf. Jo 9,34-41)».
Bartimeu desejava ardentemente ver: pediu, insistiu, e não parou até conseguir que Jesus o atendesse. “Que queres que te faça?” – Respondeu-lhe: “Senhor, que eu veja”. Jesus lhe disse: “Vê: a tua fé te salvou”. E imediatamente ficou vendo, e seguia Jesus, glorificando a Deus (Lc 18,41-43). Você não quer pedir “Faz com que eu veja”? Creia que não há ninguém que o tenha pedido com sinceridade e tenha ficado sem uma resposta. 
Santo Agostinho, antes da conversão, rezava assim: «A ti, meu Deus, elevam-se meus suspiros, e peço-te uma e outra vez asas para subir até ti. Se tu me abandonares, logo a morte se abaterá sobre mim…» (Solilóquios, n.6). Pedia, porque reconhecia que precisava de Deus, ainda que não tivesse a coragem de abraçar a fé e de seguir-lhe o caminho. Da mesma forma, São Clemente de Alexandria, que o Papa cita, fazia a seguinte oração: «Até agora andei errante na esperança de encontrar Deus, mas porque tu me iluminais, ó Senhor Jesus, encontro Deus por meio de ti, e de ti recebo o Pai, torno-me herdeiro contigo, porque não te envergonhaste de me ter por irmão. Cancelemos, portanto, cancelemos o esquecimento da verdade, a ignorância…
Nos tempos modernos, vale a pena evocar a conversão do Beato Charles de Foucauld. Esse aristocrata ateu foi um devasso esbanjador; estudou a carreira militar na Academia de Saint Cyr, e foi oficial, explorador científico e aventureiro no norte da África. Após anos de vida intensa e de toda a sorte de experiências, o vazio da sua alma revelou-se de maneira aguda e o derrubou (Deus agia na noite do seu coração). Voltou à França e estando em Paris, em 1886, sentiu um tremendo puxão interior que o impelia, mesmo descrente, a ir a uma igreja. «Comecei a ir à igreja sem ter fé. Experimentei que só me sentia bem lá, ficando longas horas a repetir essa estranha prece: “Meu Deus, se tu existes, faz com que eu te conheça”».
A graça da fé o invadiu e, um dia, com a ajuda do padre Huvelin, converteu-se e entregou-se totalmente a Deus, o Amor descoberto. Viveu bastantes anos, pobre, paupérrimo, desprendido de tudo, como monge eremita, exercendo a caridade no meio das tribos tuaregs do Sahara. Ninguém o acompanhou. Hoje, milhares de cristãos em todo o mundo o têm como mestre e padroeiro.
Agradecido pelo grande dom da fé, fazia esta oração: «Como és bom, meu Deus, como me guardaste, como me agasalhaste à sombra das tuas asas quando eu nem acreditava na tua existência! … Como estou feliz! Meu Senhor Jesus, tu puseste em mim esse amor por ti, tão terno e crescente, esse gosto pela oração, essa fé na tua Palavra, esse sentimento profundo do dever da caridade, esse desejo de imitar-te, essa sede de oferecer-te em sacrifício o melhor que eu puder dar-te… Como tens sido bom! Como sou feliz!
Neste começo do Ano da Fé, vamos examinar os porões da nossa alma. Alguns dos que leiam estas palavras talvez não tenham fé. Outros a temos, mas que espécie de fé é a nossa? Será que já experimentamos, como consequência da fé, aquela alegria que ninguém pode tirar (cf. Jo 16,22)? Não? Então a nossa fé é fraca, pobre ou doente: é ainda uma “fé-mendigo”, que deve pedir esmola como o cego de Jericó. Sendo assim pobres, façamos como os pedintes. Supliquemos com Bartimeu: “Jesus, tem piedade de mim…, que eu veja!”.
Esta é, realmente, a primeira coisa que precisamos fazer, porque a fé é um dom divino. Nestes começos do Ano da Fé, Bento XVI recorda-nos uma verdade que os catecismos já nos explicavam desde a nossa infância: «Perguntemo-nos – dizia o Papa na quarta-feira, 24 de outubro de 2012 –: de onde haure o homem a abertura do coração e da mente para acreditar no Deus que se tornou visível em Jesus Cristo, morto e ressuscitado, para acolher a sua salvação, de tal modo que Ele e o Seu Evangelho sejam guia e luz da existência? Resposta: só podemos crer em Deus, porque Ele se aproxima de nós e nos toca, porque o Espírito Santo, dom do Ressuscitado, nos torna capazes de acolher o Deus vivo. Quer dizer que a fé é, antes de tudo, uma dádiva sobrenatural, um dom de Deus». 
Acrescenta o Papa que «a fé é dom divino, mas é também ato profundamente livre e humano». Nesta meditação, ficaremos só na primeira parte: o dom de Deus; sobre a segunda – o que o homem, além de pedir, deve fazer – trataremos nas próximas meditações. Que eu veja! Tomara que nos decidamos a “querer”, a rezar, a pedir, ainda que seja com a oração descrente com que Foucauld começou. Os Salmos oferecem-nos muitas súplicas “prontas”, maravilhosas. Transcrevo agora, para concluir, apenas algumas que talvez o possam ajudar: 

Como a corça anseia pelas fontes das águas, assim minha alma suspira por ti, ó meu Deus. Minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo! Quando irei ver a face de Deus? (Sl 41[42], 2-3).

– Escuta, Senhor, a voz da minha oração. Tem piedade de mim e ouve-me. Fala-te o meu coração; a minha face te procura. A tua face, ó Senhor, eu a procuro. Não escondas de mim o teu rosto (Sl 26[27], 7-9). – Tenha, Deus, compaixão de nós e nos abençoe. Faça resplandecer sobre nós a luz da Sua face! (Sl 66[67], 2).


Padre Francisco Faus
http://www.padrefaus.org